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de personalidade
TRANSTORNO BORDERLINE DE PERSONALIDADE
O estudo, a pesquisa
e tratamento das pessoas diagnosticadas como portadoras
do transtorno borderline de personalidade é um
dos maiores desafios para os estudiosos de saúde
mental.
O conceito de personalidade borderline é o
resultado inevitável do esforço para
definir um limite entre o funcionamento mental
neurótico e psicótico.
A personalidade é a síntese de nossos
comportamentos, cognições e emoções
que faz de cada um de nós uma pessoa única.
Estes atributos tendem a ser estáveis e
permanentes, permitindo que nossos familiares,
amigos e conhecidos possam prever como nós
reagiremos a uma dada situação e
permite a eles nos descrever para outras pessoas.
Embora nossa personalidade tenha esta característica
de estabilidade e permanência, a ponto de
nossa reação frente a determinadas
situações possa ser previsível,
a pessoa com uma personalidade saudável
demonstra uma grande variedade de respostas às
situações de vida e principalmente às
situações estressantes. Um transtorno
de personalidade ocorre quando uma pessoa não
pode mostrar tal flexibilidade e adaptabilidade.
A falta de adaptabilidade e o limitado repertório
de respostas frente às situações
comuns de vida, e principalmente daquelas mais
estressantes, torna-se uma importante fonte de
sofrimento para o indivíduo e para os que
estão à sua volta.
Os transtornos de personalidade tornam-se reconhecíveis
na adolescência ou, às vezes antes,
e permanecem pela maior parte da vida adulta. São
padrões inflexíveis, muito enraizados
e de severidade suficiente para atrapalhar o funcionamento
da pessoa e trazem muito sofrimento.
O diagnóstico de transtorno de personalidade
pode indicar que o paciente tem um elevado risco
de suicídio, afeta o curso e prognóstico
de doenças co-existentes, destaca importantes
fatores etiológicos, informa ao clínico
acerca da evolução e prognóstico
do paciente, indica áreas de importante
disfunção nos papéis sociais,
familiares e ocupacionais e ajuda o clínico
na administração global do tratamento.
O instrumento diagnóstico mais usado atualmente
pelos médicos é DSM-IV (Manual Estatístico
e Diagnóstico editado pela Associação
Psiquiátrica Norte-Americana), que estabelece
alguns critérios: um padrão difuso
de instabilidade das relações interpessoais,
auto-imagem e afetos, com acentuada impulsividade
começando no início da vida adulta,
e presente numa variedade de contextos, como indicado
por cinco (ou mais) dos seguintes ítens:
1 - esforços desesperados para evitar abandonos
reais ou imaginários.
2 - um padrão de relações
interpessoais instáveis e intensas caracterizadas
pela alternância de extremos de idealização
e desvalorização.
3 - perturbações de identidade: auto-imagem
e sentido de self (sentido de ser a própria
pessoa, contato com a interioridade) acentuadamente
e persistentemente instáveis.
4 - impulsividade em pelo menos duas áreas
que são potencialmente lesivas à pessoa
(self): compras, sexo, abuso de substâncias,
direção perigosa e exageros alimentares.
5 - comportamento suicida recorrente, com tentativas
e ameaças ou comportamento auto-mutilantes.
6 - instabilidade afetiva devida à acentuada
reatividade de humor (por exemplo, disforia episódica
intensa, irritabilidade ou ansiedade usualmente
durando poucas horas e só raramente mais
que uns poucos dias).
7 - sentimentos de vazio crônicos.
8 - raiva inapropriada e intensa ou difícil
de controlar (por exemplo, ataques freqüentes
de mau humor, raiva constante, agressões
físicas repetitivas).
9 - ideação paranóide passageira,
relacionada ao estresse ou sintomas dissociativos
severos.
Porém, mesmo com a clareza das condições
para o diagnóstico do Transtorno Borderline
de Personalidade, o diagnóstico pelo médico
continua sendo uma questão muito complexa,
e deve ser feito por profissionais que tenham um
sólido conhecimento dos transtornos de personalidade,
um método sistemático de avaliação
e muita experiência em lidar com pacientes
com estes transtornos.
É
importante notar que o diagnóstico de TBP é feito
pela presença de uma coleção
de traços e não por um critério
isolado. No entanto, merece ser destacado no diagnóstico
o esforço desesperado que o portador do
transtorno faz para evitar o abandono real ou imaginário
e a gravidade das alterações das
relações interpessoais, seja na família,
escola, trabalho e lazer e, posteriormente, estas
perturbações aparecem também
com os profissionais que se aproximam para oferecer
tratamentos.
Mesmo com todos os progressos no conhecimento do
TBP o diagnóstico continua sendo mais arte
do que ciência.
O quadro clínico típico do TBP é de
uma pessoa com graves alterações
em várias áreas do seu funcionamento:
• escolaridade interrompida, sem uma carreira profissional
definida. Os objetivos mudam rapidamente e nada é levado
adiante. São pessoas que estão muito
defasadas com os pares que não tiveram interrupções
nas suas metas.
• Relações interpessoais muito perturbadas
dentro da família e fora dela. Brigas constantes
e agressões físicas não são
raras. Qualquer atrito com um chefe ou supervisor
adquire uma proporção muito grande,
levando o abandono do trabalho. A relação
com professores é complicada e tumultuada,
dificultando o prosseguimento de estudos. As relações
de amizade são quase inexistentes.
• É freqüente o envolvimento
com bebidas alcoólicas e outras drogas,
o que às
vezes, leva a extremos de violências e envolvimento
em atividades ilegais. A droga é um grande
complicador para quem já tem um funcionamento
bastante precário.
• Histórico de tentativas de suicídio
e ameaças constantes em relação
a esta possibilidade. Algumas são tentativas
sérias e outras são apenas para manipular
e controlar o meio.
• Condutas auto-mutilantes como cortes e queimaduras.
• Variação muito grande no humor,
com freqüentes ataques de fúria, que
em geral, são de curta duração.
• Condutas manipulativas - os portadores de TBP
estão sempre negociando com as pessoas à sua
volta, não para obter vantagens ou tirar
proveito dos outros, mas para tentar uma afirmação
de si próprios. Eles parecem estar sempre
perguntando quem está no controle da definição
desta situação, e da realidade.
Como ficam extremamente fixados nesta questão
do exercício de controle, de poder e competência
há uma grande perda para as relações
inter-pessoais e a conquista de realizações
pessoais e materiais.
Em resumo, são pessoas que tem seus familiares
e pessoas próximas aterrorizadas por suas
condutas agressivas, sua imprevisibilidade, suas
rápidas mudanças, seus ataques de
ira, suas ameaças de suicídio, de
auto- mutilação e provocação
de acidentes. Tudo isto se alterna com momentos
onde a pessoa é afável e carinhosa.
Raramente a pessoa tem um funcionamento mental
psicótico. Isto ocorre, em geral, em momentos
de grande estresse e tem curta duração.
Tipicamente, o portador do TBP tem um discurso
coerente, fala coisas com lógica e adequação,
não está desorientado e quando a
família relata a estranhos os problemas
que estão enfrentando com a pessoa acometida,
as pessoas às vezes duvidam do que ouviram
relatar.
O início das manifestações
do TBP ocorre na adolescência ou início
da vida adulta (raramente antes). É um início
tumultuado, explosivo, com grandes manifestações
de cóleras e condutas muito agressivas,
comportamentos perturbadores e destrutivos, ameaças
de agressões, de suicídio e auto-mutilação.
São freqüentes as agressões
verbais e físicas a familiares e pessoas
próximas. Podem ocorrer fugas e envolvimento
com drogas, furtos em casa e fora dela. Ocorrem
alterações alimentares (anorexia
ou bulimia), contatos sexuais promíscuos
e inúmeros outros comportamentos marcados
pela impulsividade. Os cinco primeiros anos são,
em geral, os mais complicados.
Freqüentemente há a necessidade de
internação.
Os conhecimentos mais recentes mostram que mesmo
com toda a conturbação e sofrimento
que o portador do TBP causa a si próprio
e a seus familiares o curso do transtorno não é tão
negativo como se pensava antes. Hoje sabemos que
o risco maior de completar o suicídio no
TBP é nos 5/7 anos do início da manifestação.
Depois disto o risco cai muito.
Sabemos também
que 10% das pessoas com TBP completam o suicídio.
As pesquisas recentes mostram que possivelmente
metade das pessoas que tiveram o diagnóstico
de TBP estarão funcionando normalmente na
4º década de suas vidas. Tudo isto
tem uma boa repercussão ao manter a esperança
nos médicos, nos pacientes e nos familiares.
Em relação às
causas devemos ressaltar que:
1 - Os fatores genéticos desempenham um
papel importante. O TBP é cinco vezes mais
freqüente em pessoas que tem um parente de
1º grau com o transtorno.
2 - O impacto do ambiente familiar no desenvolvimento
da criança é muito grande e um fator
causal importante. Cerca de 80% dos pacientes com
TBP vêm o casamento de seus pais como sendo
de natureza conflitual. Muitos pacientes com TBP
passaram por abusos físicos e sexuais dentro
de suas famílias. No entanto, há pacientes
com TBP que tiveram familiares absolutamente comuns,
sem nada de anormal.
3 - Fatores sociais mais amplos tais como mudanças
sociais rápidas que interferem na transmissão
inter-gerações de valores tem um
papel causal.
4 - Fatores psicológicos e constitucionais.
A teoria mais conhecida e aceita é a de
Kernberg que sugere que a patologia básica
no TBP é o excesso de agressividade, conseqüência
de um problema constitucional que faz com que a
criança reaja em excesso às frustrações
parentais habituais ou de uma quantidade excessiva
de frustração precoce que traz uma
agressividade excessiva como reação
a estas frustrações. Isto leva a
criança a ver-se como uma pessoa potencialmente
perigosa e assassina e que vive em um mundo muito
hostil e perigoso.
5 - Estudos recentes mostram a importância
de um cérebro intacto na formação
e manutenção de uma personalidade
normal. Os testes de funcionamento do sistema frontal
(lado frontal do cérebro) no TBP parecem
mostrar déficits como impulsividade, inflexibilidade
cognitiva, pouco auto-monitoramento e dificuldades
no processamento de informações.
Estes déficits podem contribuir para as
dificuldades comportamentais, interpessoais e emocionais
exibidos por pacientes com TBP e ter um impacto
significativo nos esforços terapêuticos.